De camelô a vice-governadora

11-05-2019   Ronaldo Almeida Imprimir

Casada, mãe de três filhos, órfã de pai aos 20 anos e vendedora ambulante. Concluiu o ensino médio cursando o (EJA) que é o programa Educacional de Jovens e Adultos, destinado a ajudar pessoas que não tiveram oportunidade ou não conseguiram concluir os estudos no modelo tradicional por enfrentar alguma dificuldade. 

 

Essa poderia ser a história de qualquer mulher brasileira vinda das classes mais humildes da sociedade, que ainda na juventude tem que lagar os estudos e começar a trabalhar para ajudar na criação dos irmãos e sustento da família. 

 

Mas a personagem dessa história é Jaqueline Moraes, negra, ex-vendedora ambulante, 43 anos, que apesar das dificuldades enfrentadas na vida, tem como marca registrada o semblante sempre alegre e o sorriso sempre grande. 

 

Hoje, ocupando o cargo de vice-governadora do Estado do Espirito Santo, ela concedeu entrevista exclusiva ao Radar Capixaba, neste final de semana onde comemoramos o Dia das Mães. 

 

Radar Capixaba: Hoje a senhora ocupa um dos cargos mais importantes do Estado do Espirito Santo, mas até bem pouco tempo atrás a senhora não era conhecida pela maioria dos capixabas. Para quem ainda não a conhece, quem é Jaqueline Moraes?

Jaqueline Moraes: Sou uma pessoa como outra qualquer, sou de uma família de origem muito humilde. Somos três irmãos, duas mulheres e um homem. Toda minha família é do Rio de Janeiro, eu nasci e vivi em Duque de Caxias até os meus 12 anos.

 

Meu pai era vendedor ambulante, montava barracas em festas em várias cidades, chegando a ficar até três meses fora de casa trabalhando, indo de um lado para o outro para sustentar nossa família.

 

E foi nessas andanças do meu pai, que em 1986, após ele passar uma temporada aqui no Estado, ele resolveu mudar pra cá de vez e trouxe toda a família.

 

Radar Capixaba: Como foi a adaptação da família no Espirito Santo?

Jaqueline Moraes: Quando chegamos aqui, fomos morar de favor em uma casa de um amigo do meu pai, no Bairro Santo Antônio em Vitória, ficamos lá pouco tempo.


Depois nos mudamos para Cariacica, meu pai continuou como vendedor ambulante e nesta época, eu junto com minha mãe e meus irmãos, já ajudávamos meu pai.

 

Vendíamos chup-chup na feira, vendíamos sombrinhas quando estava chovendo, vendíamos de tudo para sustentar nossa família. Foram tempos difíceis, de muito trabalho, mas também de muita alegria.

 

Aliás, essa é uma das características da minha família e acredito que seja da população brasileira, enfrentar as dificuldades sempre com esperança, sempre com alegria e confiantes de que um dia vamos vencer na vida. 

 

Radar Capixaba: Sua família é toda do Rio de Janeiro e poucos anos depois de estarem morando aqui a senhora perdeu seu pai, como foi esse período na vida de vocês?

Jaqueline Moraes: Meu pai morreu em 1995, eu tinha 20 anos na época e meu irmão caçula tinha 11. Minha mãe não tinha profissão, então eu junto com ela tivemos que ocupar o lugar do meu pai. Assumimos a barraca e continuamos trabalhando como vendedoras ambulantes.

 

Às vezes eu viajava de ônibus para São Paulo para comprar produtos para vendermos. Vendíamos de tudo, bolsas, brinquedos, chaveiros, sombrinhas, joguinhos infantis, lembrancinhas, roupas.

 

Foi uma época muito difícil, tive que parar meus estudos e só consegui voltar a estudar já casada e com filhos. 

 

Neste período, minha mãe, viúva, com duas filhas mulheres e um filho adolescente, foi à sustentação da nossa família. Lembro-me que mesmo com todas as dificuldades que enfrentávamos minha mãe nunca reclamava, sempre estava confiante, sempre trabalhando, lutando para por comida dentro de casa. Ela é meu exemplo e referência de mulher, batalhadora, que apesar de enfrentar tempos difíceis, nunca perdeu a alegria e a fé. 

 

Depois de alguns anos da morte do meu pai, eu  junto com minha mãe e meus irmãos, com muita dificuldade e com muito trabalho, conseguimos comprar nossa primeira casa própria no Bairro Flexal 2, onde minha mãe mora até hoje. 

Radar Capixaba: De vendedora ambulante a política, como aconteceu essa mudança?

Jaqueline Moraes: Foi uma mudança bem gradativa. Quando meu pai morreu, eu junto com minha mãe, fomos trabalhar como camelôs, foi ai que eu me associei na Associação de Vendedores Ambulantes, depois fui presidente por duas vezes da Associação dos Moradores do Bairro Operário em Cariacica.

 

Foi ai que acendeu a luz, vi que unindo forças e organizando associações e movimentos sociais, podíamos reivindicar junto às autoridades, prefeitos, vereadores e deputados, melhorias para nosso bairro.

 

Começamos a pedir calçamentos, iluminação pública, melhores atendimentos nos postos de saúde; e foi aí que me despertou a vontade de participar da política, por que a política quando usada como ferramenta de inserção social ajuda principalmente as classes mais humildes da sociedade. 

Radar Capixaba: Foi neste período que a senhora decidiu se candidatar a vereadora?

Jaqueline Moraes: Não, foi muito tempo depois. Nesta época eu já estava casada e era mãe. Eu, junto com meu marido Adilson Avelina, sempre estávamos participando de movimentos sociais e associações de moradores.

 

Então meu marido que há muito tempo tinha vontade de disputar uma eleição para vereador, em 2009 se candidatou e foi eleito vereador de Cariacica.

 

Quando chegou em 2012, ele podia disputar a reeleição, mas um grupo político que fazíamos parte o incentivou a disputar a prefeitura de Cariacica, foi aí que eu concorri e graças a Deus fui eleita vereadora, sendo a sexta mais votada do município, com 2652 votos. 

 

Radar Capixaba: Hoje como vice-governadora a senhora tem uma agenda muito corrida. Como faz para conciliar a política com a vida familiar?

Jaqueline Moraes: Minha vida sempre foi de muita correria, desde pequena. Tenho três filhos, a Meriele de 24 anos, Avelina Paula de 17 e o Isaque de 3. Fui mãe muito nova, mas precisava trabalhar para ajudar com as contas da casa.


 


E mesmo com filhos pequenos decidi voltar a estudar, então eu trabalhava de dia e estudava a noite, para fazer tudo isso eu deixava os filhos na casa dos vizinhos, deixava na creche, às vezes eu buscava, às vezes meu esposo buscava e íamos tocando nossas vidas nessa correria. 


Hoje continuo seguindo da mesma forma, lógico que agora as responsabilidades e compromissos aumentaram, então meu filho de três anos fica na creche, quando dá eu levo e busco, quando não posso, meu esposo vai buscar e as coisas vão se ajustando. 

No mais,  levo minha vida da mesma forma, vou na mesma padaria, compro no mesmo supermercado, frequento a mesma igreja. E sempre converso com meu esposo e com meus filhos, o importante em família não é o tempo que passamos juntos, mas a qualidade do tempo que passamos. 

Radar Capixaba: Ainda hoje a participação das mulheres na política como candidatas é muito pequena, como a vice-governadora avalia esse desinteresse das mulheres ocuparem cargos eletivos?

Jaqueline Moraes: Vejo que está mudando, mesmo timidamente, mas já temos avanços. Sou uma pessoa muito otimista, entre eu ver o copo meio cheio ou meio vazio, eu sempre vou ver meio cheio. Então eu acredito que as mulheres estão querendo participar mais, essa é uma das minhas bandeiras enquanto eu estiver como vice-governadora.

 

Recebo incentivo e total apoio do nosso governador Renato Casagrande. Hoje junto com nossa Secretária dos Direitos Humanos Nara Borgo, estamos desengavetando o projeto de Política para Mulheres que ficou na gaveta durante os quatro anos do governo passado.

 

Vamos implantar a Agenda da Mulher, que é um programa sustentado em três pilares, institucional, social e político. 

Radar Capixaba: Como esse programa vai mudar a vida das mulheres?

Jaqueline Moraes: Vamos trabalhar para incentivar a participação das mulheres na política, vamos reforçar a agenda de combate à violência contra as mulheres.

 

Vamos capacitar as lideranças femininas a exercerem seu papel de líderes em associações, em movimentos sociais, vamos dar voz as mulheres.

 

Mas minha principal bandeira é incentivar o empreendedorismo das mulheres, por que se formos ver as causas de grande parte da violência que as mulheres sofrem, vamos descobrir que está diretamente ligado a dependência que as mulheres têm dos homens, é a hipossuficiência.

 

Por que, quando uma mulher é agredida, ou sofre ameaças e maus tratos dentro de casa pelo marido ou seu companheiro e tem filhos pequenos, mesmo com medo ela pensa, para onde eu vou, o que eu vou fazer da minha vida, quem vai sustentar meus filhos?

 

Então por estes motivos ela acaba se sujeitando a tantas humilhações e passa por tanto sofrimento e nos piores casos perde até a vida pela dependência que elas ainda têm dos homens, então nós precisamos e vamos trabalhar para mudar isso. 

Radar Capixaba: Hoje a senhora já entrou para história se tornando a primeira vice-governadora do Espirito Santo. Como à senhora vivencia isto?

Jaqueline Moraes: Eu admito que quando recebi o convite do governador Renato Casagrande para ser sua vice, foi um choque e fiquei sem voz na hora. Meu telefone estava sem bateria e não consegui avisar meu esposo, que só ficou sabendo através da imprensa.

 

Mas falando do meu papel da primeira mulher a ocupar o cargo de vice-governadora do Estado, eu encaro com muita seriedade e muita responsabilidade. Sei que daqui a cem anos, as pessoas vão abrir os livros e vão ler e saber o que fizemos, hoje estamos fazendo história, então espero que seja uma bela história, que deixemos um legado de conquistas sociais, de inclusão e de avanço na vida dos capixabas.

 

Vou dar o melhor de mim para cumprir meu papel junto com nosso governador e toda nossa equipe.

 

Radar Capixaba: Ano que vem temos eleições municipais, será que vamos ver a senhora como candidata a prefeita de Cariacica?

Jaqueline Moraes: Acho que ainda é muito cedo para decidirmos isto, o (PSB) que é o meu partido e o partido do governador é um partido muito orgânico. Fazemos reuniões constantemente, então, não é uma decisão que vai partir só de mim.

 

Cariacica tem várias lideranças políticas, deputados estaduais e federais, vereadores e o grupo do atual prefeito. Acredito que as forças políticas de Cariacica vão criar um movimento para unir forças em prol do melhor para o município, eu quero o melhor para minha cidade, seja eu sendo candidata ou apoiando algum candidato, vou trabalhar para melhorar a vida das pessoas sempre.

 

Mas se eu for chamada e for consenso das lideranças políticas, estou à disposição, vamos conversar com todos para decidirmos, e lógico, vamos ouvir o nosso governador, que esta liderando um projeto de política para nosso Estado e essa decisão também vai passar pelo aval dele. 

Radar Capixaba: Este final de semana comemoramos um dia muito especial, o Dia das Mães, qual mensagem a vice-governadora e mãe Jaqueline Moraes deixa para os Capixabas?


Jaqueline Moraes: A mensagem que deixo, é para as mães, os filhos e todos nós usarmos essa data tão importante para refletirmos sobre a importância das nossas relações. 


Hoje estamos vivendo um tempo de muita integração por meio das redes sociais, as pessoas estão na internet, nas redes sociais, nos aplicativos e isso é bom, mas mais importante que isso, é se conectar fisicamente com as pessoas. Nada substitui um abraço, um beijo, uma conversa olho no olho. 


Então vamos tirar um tempo para tomar um café com nossas mães, com nossos amigos, com nossos irmãos e filhos. Precisamos reviver momentos em família, ligar e conversar com nossa mãe é importante, mas não substitui um abraço. 

 

Eu sempre que posso, vou na casa da minha mãe ver ela, abraçar ela, sento na escada da casa dela e fico lá conversando, isso não tem preço. 

Como dizia Dom Luiz Scandiam, “Longe dos olhos, longe do coração, perto dos olhos, perto do coração”.