O inventor de cidades

24-07-2018   Redação Imprimir

No casarão verde de quintal vertiginoso por detrás e, hoje, com pracinha lateral com bancos e mesas sob um generoso e longevo Pé de Fruta-Pão as pessoas vão para ler poesia e prosa de consagrados e nascentes; inéditos e célebres.

Cachoeiro de Itapemirim está entranhada daquela casa. Pelas brisas passeadas por entre janelas e portas no vão imenso do pé direito, pelo calor adensado de muitas tardes e noites febris do passado.

Na trilha sonora do assoalho de tábuas rangendo a passagem dos anos e o varrer das estações.

Na velha casa, antes habitada pelos Braga, hoje senhoria de livros e vislumbres juvenis de meninos e meninas atravessando o duro ofício de assumir as rédeas e os cordames das carroças e dos fantoches do futuro.

Sonhos e esperanças de significar e transformar o velho mundão, precipitado em seis dias.

Na casa dos Braga, jovens muito jovens e testemunhas de minutagens bem mais extensas se reúnem para ler em voz alta e ouvir, desvelados, na arquitetura das letras, a construção de idéias e recortes reais de impressões nem tão racionais assim.

Lá encontro um amigo que afirma que, se perguntado sobre as três coisas que menos gosta, elencaria sumário: Acrobacias aéreas, saraus literários e arroz soltinho.

Mesmo assim lá estava ele, homem de envergadura intelectual e entendimento incontestável das coisas da vida. Entende, por exemplo, que não é preciso gostar de motor para andar e correr de carro.

E, por falar em carro, lembro de uma vez em que ele, para fugir de uma companhia indesejada, rompeu pela contra mão em uma ponte de sentido único.

Ele estava dando uma carona para a tal, e cortar caminho pela ponte era o caminho mais rápido para chegar ao destino. Um atalho de alta periculosidade, que só uma tamanha chatice seria capaz de fazer brotar coragem para se percorrer.

Meu amigo nem titubeou. 

As pessoas se encontraram no casarão verde, dia 11 de agosto, e não foi a toa. É data de aniversário de Newton Braga, irmão mais velho e mentor do velho Rubem Braga.

Naquela noite o recém fundado instituto, que enverga nome de Newton, se reuniu para dar ao escritor e inventor os devidos méritos pelo legado que deixou.

Sim senhor, Newton foi escritor e jornalista de qualidade superlativa, criou a primeira agência de publicidade capixaba, a Galo Publicidade.

Foi ele quem arrumou em BH o primeiro emprego de Rubem Braga em um Jornal, cedendo ao caçula sua vaga no Diário da Tarde onde o cronista despontou para o Brasil em carreira tão meteórica quanto sua verve.

Mas, me perguntem; por que ele é Inventor? O que, diabos, inventou?

Acontece que Newton Braga inventou Cachoeiro de Itapemirim. Sem ele aquele entreposto comercial nascido no século XIX não teria virado à mística e intrigante cidade que virou.

Foi ele quem inventou, escreveu e vigiou de perto a bula e as receitas de uma cidade querida e suave, mística e orgulhosa, embora de índole simples, mais pontuada por sapateiros, quitandeiros e lavadeiras que por poderosos, clérigos e políticos.

Praticamente modelou a velha cidade cortada por um rio de pedras e águas mitigadoras da rude paisagem abrupta de morros.

Os epigramas de Newton, às vezes escavados em duas linhas incompletas, são épicos grandiosos, descortinados na imprecisa matemática do tempo.

Numa dessas micrônicas ele finaliza repetindo a frase de um anônimo retratado em seu texto "se cachorro soubesse a dentadura que tem, só vivia dando risada."

Pois é, Cachoeiro tem a obra e a memória de Newton Braga. Pode sim, ao menos, insinuar um longo sorriso. Permanente.

 

João Moraes – Escritor, compositor e Poeta